Quando abordamos em nossas aulas os temas da escolha profissional e do mercado de trabalho no mundo globalizado, precisamos nos lembrar que estamos diante de um novo paradigma. Este é um mundo bastante diverso daquele em que nós mesmos pautamos nossas escolhas e definimos atitudes que nos trouxeram até aqui.
Um mundo cada vez mais “líquido” como diria Zygmunt Bauman. Um cenário em que as verdades, as instituições e as referências mudam em uma velocidade alucinante. Isso é ruim? Sim, se pensarmos na falta de credibilidade nos adultos e nas autoridades, que muitos jovens sentem hoje em dia. Há um crescente número deles que sentem dificuldade de confiar em seus próprios pais, como modelos de referência. Se até a década de 1980 ser como o pai era algo que inspirava um jovem, hoje em dia isso já não ocorre com tanta freqüência. Aliás, não é incomum vermos pais e mães querendo ser como seus filhos. Isso sem falar da falta de credibilidade política, que culmina num cenário ainda mais nebuloso, pois se os exemplos morais das instituições que deveriam nortear a vida pública, a res publica, nos afrontam com falas de que “não estão nem aí para a opinião pública”, o que pode sentir um adolescente diante destes tipos de modelos? “Crescer para ser assim”?, eles poderiam se perguntar.
Isso gera uma idéia de que ficar no presente ou na apatia, é mesmo a melhor solução. Para quê pensar em formar um projeto de vida, se esta (a vida) é aviltada em todos os canais de televisão, nas rádios e nos jornais justamente por aqueles (os adultos) em que os jovens poderiam se inspirar para impulsionar em si um crescimento moral, ético, pessoal e profissional?
A mesa de jantar e especialmente a sala de aula não pode negar a realidade. Os desmandos, a violência e as muitas crises estão aí, mas diante delas estão as nossas escolhas e a força do nosso caráter. É preciso mostrar também exemplos de lisura e decência e dar-lhes o devido foco, senão, fica parecendo que está tudo perdido, quando não está. O que há é a vida sendo escrita e revista, o tempo todo por cada um de nós.
É nosso dever estimular uma leitura da realidade em seu todo, nas dificuldades e nas oportunidades. O jovem deve ter direito a sonhar e a perceber os meios para realizar seus sonhos com informação isenta e atualizada. Assim, se por um lado há muitos números assustadores sobre as dificuldades do mundo do trabalho atual, há também uma série de perspectivas, especialmente para alunos preparados, com brilho nos olhos e fogo no coração.
Em grandes empresas, a concorrência para programas de Trainee passa dos mil candidatos por vaga. Isso significa mais de 15 vezes mais o número de candidatos para profissões bastante concorridas no vestibular. Diante disso é preciso pensar na formação profissional como rege a LDB/96: como uma atribuição também concernente à escola. É preciso balancear a oferta de conteúdos escolares formais com aqueles que irão fazer a diferença lá na frente.
O mercado seleciona os candidatos por competências. Há muitos casos de Engenheiros que ocupam o lugar de Administradores, ou Economistas que ocupam o lugar de Psicólogos em RH. Por quê? Pois desenvolveram as competências necessárias àquilo que a empresa precisa.
Não é mais somente o nome da carreira que importa e sim o conjunto de competências fundamentais e diferenciais que uma pessoa adquiriu ao longo de sua formação.
Richard Sennet, outro sociólogo, aponta que no cenário do mundo globalizado, a seleção natural do mercado se nivela por cima e as empresas podem escolher dentre os melhores, assim como estes também podem (liquidamente) escolher onde trabalhar. Sim, é uma escolha de ganha-ganha enquanto convier a ambos os lados. O jovem fica no trabalho por quanto tempo ele quiser – se tiver competências de Trabalhabilidade, e esta fica com ele por quanto tempo necessitar – se for atraente para novos talentos. Não há mais nem a idéia de fidelidade.
Diante desta perspectiva podemos listar entre as competências fundamentais atuais: cursar uma universidade respeitada, conhecimentos gerais, domínio de uma língua estrangeira, conhecimentos avançados do Pacote Office da Microsoft, trabalhos voluntários e domínio da língua portuguesa.
Se pensarmos em competências diferenciais, estas são formadas por um mosaico de experiências que a escola e a família proporcionam, além daquelas que o próprio adolescente busca. Aqui entram em jogo uma viagem cultural, ou passeios a museus, exposições e mostras culturais (que abrem a mente do aluno para uma leitura mais crítica e enriquecida do mundo), o conjunto de valores que são defendidos e praticados em casa e na escola (o que gera um modo de ser polido e humanista), uma educação escolar voltada à autonomia e à pesquisa (que faz com que o jovem construa conhecimentos e não somente decore aquilo que a escola ensina e no seu futuro se torne pró-ativo diante das mudanças do mercado líquido), a formação familiar participativa (que favorece a humildade e o senso de equipe), uma segunda língua, o hábito de leitura (pelo aporte de cultura geral, memória e repertório cognitivo, além de aumentar significativamente a capacidade de aprendizado). Some-se a isso cursos extra-curriculares de teatro, artes plásticas ou outras expressões sensíveis (que ensinam a olhar e educam a sensibilidade, além de fortalecer a determinação e a meticulosidade) e trabalhos voltados ao autoconhecimento, que permitem que se saiba mais sobre nós, sobre nosso lugar no mundo e nosso papel diante das múltiplas possibilidades deste mundo em constante evolução.
Complexo? Complicado? Em educação, tudo que é difícil fazer, será muito mais difícil se não for feito.
A Missão de formar Projetos de Vida, de educar jovens sadios, competentes e felizes não é mais uma atribuição para a escola. É o coroamento de tudo que se processa dentro dela, pois sai no brilho dos olhos dos jovens que ela educa e ilumina toda a sociedade. Ou não.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
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