quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Construir diferenças para o sucesso profissional

Quando abordamos em nossas aulas os temas da escolha profissional e do mercado de trabalho no mundo globalizado, precisamos nos lembrar que estamos diante de um novo paradigma. Este é um mundo bastante diverso daquele em que nós mesmos pautamos nossas escolhas e definimos atitudes que nos trouxeram até aqui. Na minha infância era assim: não se sentava em uma mesa sem camisa.

Tinha que dar beijo em todo mundo quando chegava e quando saía. Aperto de mão era firme. –“Presta atenção, quando um homem aperta a mão de outro, olha nos olhos e segura firme”, meu tio falava sempre. As minhas primas ouviam orientações sobre como uma moça devia se sentar à mesa e não se esparramar num sofá de pernas abertas. Quando terminava-se de comer, cada qual tinha seu papel: uns tiravam a mesa, outros ajudavam na arrumação. Todos trabalhavam em grupo. Não havia essa coisa de não querer, pois fazer parte era realmente se envolver. Hoje em dia, os papéis se multiplicaram, os desejos também e em muitas casas as coisas se inverteram de maneira dramática. Em muitas famílias os filhos é que comandam os pais.

Estamos diante de um mundo cada vez mais “líquido” como diria Zygmunt Bauman. Um cenário em que as verdades, as instituições e as referências mudam em uma velocidade alucinante. Isso é ruim? Sim, se pensarmos na falta de credibilidade nos adultos e nas autoridades, que muitos jovens sentem hoje em dia. Há um crescente número deles que sentem dificuldade de confiar em seus próprios pais, como modelos de referência.

Se até a década de 1980 ser como o pai era algo que inspirava um jovem, hoje em dia isso já não ocorre com tanta freqüência. Aliás, não é incomum vermos pais e mães querendo ser como seus filhos. Isso sem falar da falta de credibilidade política, que culmina num cenário ainda mais nebuloso, pois se os exemplos morais das instituições que deveriam nortear a vida pública, a res publica, nos afrontam com falas de que “não estão nem aí para a opinião pública”, o que pode sentir um adolescente diante destes tipos de modelos? “Crescer para ser assim”?, eles poderiam se perguntar.

Isso pode gerar uma idéia de que ficar no presente ou na apatia, é mesmo a melhor solução. Para quê pensar em formar um projeto de vida, se esta (a vida) é aviltada em todos os canais de televisão, nas rádios e nos jornais justamente por aqueles (os adultos) em que os jovens poderiam se inspirar para impulsionar em si um crescimento moral, ético, pessoal e profissional?

As muitas crises estão aí, mas diante delas estão as nossas escolhas e a força do nosso caráter. É preciso mostrar também exemplos de lisura e decência e dar-lhes o devido foco, senão, fica parecendo que está tudo perdido, quando não está. O que há é a vida sendo escrita e revista, o tempo todo por cada um de nós. É nosso dever estimular uma leitura da realidade em seu todo, nas dificuldades e nas oportunidades. O jovem deve ter direito a sonhar e a perceber os meios para realizar seus sonhos com informação isenta e atualizada. Assim, se por um lado há muitos números assustadores sobre as dificuldades do mundo do trabalho atual, há também uma série de perspectivas, especialmente para alunos preparados, com brilho nos olhos e fogo no coração.

É passada a hora de rever as coisas e reconhecer nosso papel enquanto modelos de nossos filhos e educandos. Se educar dá trabalho, não fazê-lo dará muito mais lá na frente. Em processos seletivos, selecionadores buscam candidatos que tenham línguas estrangeiras, cursos extra-curriculares, domínio de informática, experiência no exterior, trabalhos voluntários, enfim, todo um “pacote” de empregabilidade. Mas a verdade é que se destacam efetivamente os candidatos com comportamento diferenciado: saber trabalhar em equipe, olhar nos olhos, mostrar deferência à autoridade e à hierarquia, falar num linguajar adequado, se vestir com elegância, se dispor a ajudar os outros, se mostrar uma pessoa com energia. Tudo isso faz uma diferença enorme.

O “fator berço“ é hoje altamente valorizado no mercado de trabalho, justamente porque anda raro. Nós faremos um trabalho muito mais qualificado na preparação para o futuro se cuidarmos da maneira como nos apresentamos a eles, se refletirmos sobre qual modelo de atitudes lhes oferecemos. No modo como entramos em sala de aula, na postura como nos dirigimos aos nossos alunos, na forma como nos aliamos às famílias que compõem a nossa comunidade escolar, como sustentamos aquele conjunto de fatores intangíveis que formam uma pessoa de verdade. A qualidade do berço influencia toda uma vida.

Em grandes empresas, a concorrência para programas de Trainee passa dos mil candidatos por vaga. Isso significa mais de 15 vezes o número de candidatos para profissões bastante concorridas no vestibular. Diante disso é preciso pensar na formação profissional como rege a LDB/96: como uma atribuição também concernente à escola. É preciso balancear a oferta de conteúdos escolares formais com aqueles que irão fazer a diferença lá na frente.

O mercado seleciona os candidatos por competências. Há muitos casos de Engenheiros que ocupam o lugar de Administradores, ou Economistas que ocupam o lugar de Psicólogos em RH. Por quê? Pois desenvolveram as competências necessárias àquilo que a empresa precisa.
Não é mais somente o nome da carreira que importa e sim o conjunto de competências fundamentais e diferenciais que uma pessoa adquiriu ao longo de sua formação.

Richard Sennet, outro sociólogo, aponta que no cenário do mundo globalizado, a seleção natural do mercado se nivela por cima e as empresas podem escolher dentre os melhores, assim como estes também podem (liquidamente) escolher onde trabalhar. Sim, é uma escolha de ganha-ganha enquanto convier a ambos os lados. O jovem fica no trabalho por quanto tempo ele quiser – se tiver competências de Trabalhabilidade, e esta fica com ele por quanto tempo necessitar – se for atraente para novos talentos. Não há mais nem a idéia de fidelidade.

Se pensarmos em competências diferenciais, estas são formadas por um mosaico de experiências que a escola e a família proporcionam, além daquelas que o próprio adolescente busca. Aqui entram em jogo uma viagem cultural, ou passeios a museus, exposições e mostras culturais (que abrem a mente do aluno para uma leitura mais crítica e enriquecida do mundo), o conjunto de valores que são defendidos e praticados em casa e na escola (o que gera um modo de ser polido e humanista), uma educação escolar voltada à autonomia e à pesquisa (que faz com que o jovem construa conhecimentos e não somente decore aquilo que a escola ensina e no seu futuro se torne pró-ativo diante das mudanças do mercado líquido), a formação familiar participativa (que favorece a humildade e o senso de equipe), uma segunda língua, o hábito de leitura (pelo aporte de cultura geral, memória e repertório cognitivo, além de aumentar significativamente a capacidade de aprendizado).

Somem-se a isso cursos extra-curriculares de teatro, artes plásticas ou outras expressões sensíveis (que ensinam a olhar e educam a sensibilidade, além de fortalecer a determinação e a meticulosidade) e trabalhos voltados ao autoconhecimento, que permitem que se saiba mais sobre nós, sobre nosso lugar no mundo e nosso papel diante das múltiplas possibilidades deste mundo em constante evolução.

O espírito empreendedor é justamente isso: é aprender a desenvolver a autonomia e a iniciativa pessoal, a pesquisar, a buscar conhecimentos além daqueles pedidos pelos professores em sala de aula. Ser empreendedor é aprender a ler a realidade a partir de diversos ângulos, ler uma notícia de diversas fontes e formar a sua própria opinião. Empreender é vislumbrar as tendências e pensar em formas de investir em oportunidades novas no mercado de trabalho. É olhar para um supermercado, uma loja, um restaurante ou um consultório, sempre pensando em como melhorar o atendimento, os serviços, os produtos, as embalagens, a comunicação, enfim, é cultivar um olhar que viaje na imaginação e pense o que ninguém se atreveu antes a pensar.

A pessoa que investe algum tempo desenvolvendo este espírito empreendedor, desde cedo é o que tem maiores chances de sucesso no futuro. As principais características das pessoas empreendedoras são: autoconhecimento, atuoestima, solidariedade, habilidade de comunicação, inteligência emocional, criatividade, trabalho em equipe, pró-atividade e habilidade para usar tecnologia. Desenvolver essas características envolve tudo que foi dito acima: o fator “berço”, reconhecer que somos modelos e rever nossas atitudes, estimular a leitura da realidade levando em conta os aspectos negativos e positivos, entre outros. Complexo? Complicado? Em educação, tudo que é difícil fazer, será muito mais difícil se não for feito.


imagem sxc

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