Ser adolescente hoje realmente não é fácil. De um lado existe uma propaganda crescente que incita os familiares, e aqui entram pais, tios e avós, a mimá-los, a tratá-los como pequenos reis. Lembro de um amigo que ficou estupefato numa festa em um buffet infantil, quando se apagaram as luzes e o pequeno de sete anos entrou carregado por seis pessoas, como se fosse um pequeno marajá. Esse tipo de cena vem se repetindo nos supermercados, nas festas e até nas reuniões de pais e mestres, quando alguns familiares, com a melhor das intenções, dão de dedo na cara dos professores, que exigem demais dos alunos e lhes pedem lições de casa “muito complicadas”. Na outra ponta existem os jovens abandonados, cujos pais, com intuito de proporcionar bens materiais, seja porque gostam de seus trabalhos, ou porque não tiveram eles mesmos modelos de pais presentes, os deixam na mão de terapeutas, de babás, de motoristas e não é raro um desses cuidadores saber mais do filho do que o próprio pai ou a mãe. Além disso, convivem com modelos e instituições cada vez mais instáveis e pouco confiáveis.
O fato é que além de tudo isso, ainda são chamados de “aborrecentes”, porque têm uma impulsividade e uma inquietude diante do que não é certo e diante daquilo que não lhes convém. Traços esses absolutamente naturais da adolescência, fase em que o córtex órbito-frontal ainda não está efetivamente interligado ao hipocampo, ou seja, a sede da moralidade ainda não está totalmente instalada e o controle dos impulsos de modo absoluto, é praticamente impossível. Assim, é tão errado dizer que o jovem é um “aborrecente”, quanto seria este se dirigir aos seus pais ou mesmo aos seus professores, dizendo que este é um “adultochato”.
Parece que virou moda tentar categorizar as gerações. Esta passou a ser a geração Y, a geração que não aceita regras, que é impulsiva, que faz dez coisas ao mesmo tempo, que não tem tempo para nada, com uma agenda lotada e que não se compromete. Ora, quem pertence a esta geração? Só os adolescentes? Vemos muitos adultos com esse comportamento. Na política e até nas empresas.
Por isso me faz mais sentido falar aqui da acepção de Jon Briscoe, da Universidade de Illinois. Para ele, não faz mais sentido pensarmos que os fatores associados à geração Y são apenas encontrados nos jovens. Hoje, a vontade de inovar, de pertencer, de ter significado, de conciliar o trabalho com uma boa qualidade de vida, o desejo de poder ter um trabalho que nos faça sentido, um ambiente que seja alegre, em que haja respeito, afeto e um senso de importância e pertencimento, podem ser expressos por gente de espírito jovem.
As pessoas esperam ser tratadas como humanas pois querem amar, sonhar, pertencer e serem felizes. Cada fase de vida tem seus aspectos positivos, suas janelas de oportunidades e suas maravilhas, assim como suas limitações. É preciso que nós educadores saibamos validar aquilo que a adolescência tem de mais brilhante, na sua força, na sua garra, na sua energia, na sua vontade de vencer o mundo. Afinal de contas, se nós temos um cérebro mais maduro, precisamos usá-lo com compaixão para que possamos minimizar os efeitos dos excessos, não dos adolescentes, mas dos adultos, que ao não compreender a natureza da adolescência em si, cerceiam, inibem e tolhem em vez de estimular o jovem a ser o seu melhor.
É só quando resgatarmos o contato com nossa própria humanidade, com nossas próprias contradições, com nossos próprios paradoxos que poderemos entrar em contato efetivo com uma fase que é paradoxal em si, em que se sente criança e adulto, em que se quer crescer e ficar como é, em que sonha com um mundo adulto no qual eu tenha vontade de crescer.
imagem sxc
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1 comentários:
Léo Fraiaman,
Sou Nathane e Em 2006 participei de uma palesta sua no Camp, e cheguei até a participar de uma "dinâmica" e ganhei até um livro de suas mãos.
E desde então acompanho seu trabalho e lhe admiro muito, e diariamente acesso seu blog.
Vai ai uma sugestão atualize o mesmo com mais frequência porque s]ão artigos muito bom.
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