segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Luz é para iluminar!

O Brasil inteiro faz, há dias, suas refeições assistindo repetidamente aos golpes desferidos por um jovem que, empunhando uma lâmpada, tenta apagar o rosto de seu “de-semelhante”, cuja orientação sexual lhe incomoda.

Não bastou a covardia do bastão apagadio. Não bastaram chutes e golpes na vítima. Não foi suficiente a imagem de carros e outros transeuntes que à cena passavam sem dar-lhe luz.

Nada disso foi suficiente para comover os pais deste jovem e seus comparsas. Repetidas vezes se viu a mãe dizendo que isso era coisa de criança, coisa normal de gente jovem. O advogado de defesa ousou tentar achar uma explicação num possível “flerte” das vítimas aos agressores, fato que não se comprova nas gravações. E mesmo que se comprovasse, jamais seria motivo para a violência como resposta. Ser desejado por alguém, seja de qualquer sexo, não é violência e nem incomoda aos que são seguros do que são, enquanto seres humanos dignos.

Que reação teria esta mesma mãe diante de situação semelhante, mas em posição inversa? No dado momento, a suposta brincadeira se deu motivada pelo desagrado da visão daquele cuja orientação sexual parecia diferente da sua. Daria esta mesma mãe o seu rosto a outra pessoa quebrar uma lâmpada, caso esta torcesse para um time diferente do seu? Concordaria ela que um vendedor de uma loja estilhaçasse uma lâmpada no rosto de seu filho em resposta negativa a um pedido de desconto?

Fica claro que não. Claro como o dia e frio como o inverno, os pais do jovem e suas estratégias de defesa jurídicas se postularam como cúmplices do referido ato. Ao tentarem reduzir o caráter hediondo do crime cometido, ofendem a todos nós. É um dos bens mais caros de uma sociedade o direito de ir e vir, coisa que foi subtraída do jovem vitimado e seus amigos, também agredidos. Assim como cada um de nós, todos agredidos enquanto civilização.

Numa tentativa desastrada de banalizar a gravidade do crime, a família e o sistema que lhes permite liberdade “por não oferecerem risco à sociedade” ou “por serem menores de idade”, mesmo se sabendo de históricos de violência até em salas de aula no “currículo” do agressor, todos se incriminam. O que definiria o perigo? Se uma pessoa agride outra injustificadamente na rua, isso não é um perigo a cada um de nós? Não oferece risco à sociedade aquele cuja visão é obnubilada por seus próprios preconceitos? Se o outro não me percebe, certamente tenderá a me atropelar. Se não percebe a gravidade do que fez, tenderá a repeti-lo.

Foucault, em seu livro “Vigiar e Punir”, já apontava que a punição nunca é corretiva, dado que o ato passado não tem volta. Ela é sempre exemplar. Quando bem feita. Onde está, pergunto até, a OAB para também se manifestar sobre uma tentativa espúria de desmentir um fato, um dado, uma certeza cujas câmeras não mentem?

Para alguns pais, homem que é o homem, é o machão, aquele não precisa pensar, não precisa ter mente. Não precisa temer. Nada, nem ninguém. Ser homem permite, nessa visão distorcida, dar de ombros ao outro e anular, apagar o diferente.

Homem, na verdade, é aquele ser que, sendo humano, usa seu falo para criar, semear, para generosamente dar vida a uma outra vida, para formar uma família, para “homem-nagear” a dignidade e a luz, à vida em todas as suas formas e cores. Homem que é homem sabe o valor de outros seres humanos, e seu lugar no mundo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Homofobia: A lâmpada usada para apagar

No vídeo, Leo Fraiman comenta o ato bárbaro ocorrido na Avenida Paulista por suposta homofobia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Empreender é um ato ético

O mundo discutiu neste mês de novembro, em eventos por diversas cidades (inclusive brasileiras), o empreendedorismo. E para mim é muito claro que empreender é um ato ético, considerando a ética como um conjunto de valores ligados ao bem comum. Sim, ético, e basta olhar à nossa volta para se ter certeza disso. Na própria origem, a palavra nos convida a essa conclusão: empreender vem do infinitivo em Latim “prehendere”, que significa pegar, levar adiante. Ou, trazendo para a realidade do mundo de hoje, segurar um sonho, agarrar uma meta, não deixar escapar um objetivo, perseverar pelos resultados.

Quando mantemos firme um sonho para concretizá-lo da melhor forma, estamos, portanto, empreendendo. No meio corporativo, isso pode ser sinônimo de eficiência. E ser eficiente, dar o melhor de si, é uma atitude de caráter, porque, principalmente no contexto globalizado em que vivemos, nossas ações enquanto profissionais atingem outras pessoas, o que nos torna responsáveis não apenas pelo nosso ato, mas pelo que ele vai impactar na vida de outros seres humanos.

O contrário dessa postura significa prejuízos a todos. Não empreender um projeto, não realizar da melhor forma um trabalho, não se dedicar na concepção, execução, apresentação e entrega de um produto significa prejudicar o próximo. Imagine-se um carro mal concebido e todos os riscos que ele pode gerar a quem comprá-lo. Ou, ainda, uma cirurgia mal feita, uma informação deformada, uma aula mal explicada. Em todas essas atitudes não empreendedoras, há riscos deflagrados pela negligência.

Quando não empreendemos, portanto, quebramos a corrente dos valores mais nobres entre os humanos: compartilhar, interagir, respeitar o próximo por meio da atitude, da decisão de servir a uma causa que não é de um, mas de uma sociedade. Os princípios dessa postura estão em nossas raízes, no ecossistema, ou seja, a natureza já nos ensina ao convívio e à superação pela sobrevivência, ao respeito pelo outro e pelas diferenças que se completam.

A semana global do empreendedorismo fechou com um desafio lançado ao mundo. Desafio que para mim é trabalho diário, por meio do qual vejo nos olhos das crianças e adolescentes contemplados com o ensino do empreendedorismo (em vias de se tornar lei no Brasil) uma esperança real de um país melhor, um mundo melhor, uma humanidade melhor.
Fernando Pessoa nos desafia ao dizer que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E completa o belo poema cravando que “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu”. Que busquemos, pois, o horizonte, com mãos fortes e sem medo de dar ao mundo o melhor que temos.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Enem como antítese

Chega a ser irônico o fato de a proposta de redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) focar o trabalho e a ética como valores a serem discutidos pelos jovens. Porque o próprio Enem, mais uma vez, está envolvido em denúncias que colocam em xeque sua condição de avaliação ampla e, necessariamente, justa.

O exame mobilizou mais de 3 milhões de estudantes que, após anos de trabalho visando merecer um bom desempenho, se veem diante da dúvida sobre a própria viabilidade da prova. Ou seja, diante do sentimento de que nada valeu a pena, lançados à desconstrução de tudo o que empreenderam com seus estudos.

Trata-se de uma grave contradição. Se o exame se propõe a ser um termômetro da meritocracia em nível nacional, está, na verdade, frustrando esse valor através do mau exemplo. Isso porque, após denúncias já ocorridas em anos anteriores, este ano uma pequena parte das provas continha erros, os candidatos que as receberam acabaram prejudicados e todos, agora, se veem diante de uma situação que ameaça o espírito empreendedor e a iniciativa que se espera de uma sociedade desenvolvida.

A contradição se agrava ao refletirmos sobre o que significa esses repetidos erros denunciados sobre o Enem. Ao que parece, não há sintonia, por exemplo, entre governo e gráfica que imprime as provas, pois tampouco se confere corretamente o que se propõe aplicar e o que se aplica aos participantes da avaliação. E uma prova que prega a transversalidade de conhecimento entre Ensino Médio e universitário mostra ser, ela mesma, um fracasso nesse sentido.

O resultado disso é mais desilusão despejada num dos setores que mais carecem de atenção no país: a educação. Isso porque, estando a prova perdida e com credibilidade ameaçada diante da proposta de ser um parâmetro nacional, a juventude estudantil corre o risco de se tornar mais apática, boa condição para governos que se aproveitam de uma sociedade inerte, mas um contexto péssimo para um país que se diz no trilho do desenvolvimento.

Lembrando o escritor irlandês Oscar Wilde, “Um cínico é o homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”. O Brasil, a considerar esses tropeços do Enem, corre o risco de estar deixando de lado o verdadeiro valor de uma ampla avaliação, bem-vinda e necessária, mas que só terá sentido se premiar os mais capazes e preparados para empreender o futuro.

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